Página Inicial Notícias Quase 90% dos professores brasileiros nunca havia dado aula remotamente

Quase 90% dos professores brasileiros nunca havia dado aula remotamente

16/05/2020 - 18h05

Por SIGMA Assessoria

Professora do terceiro ano do ensino fundamental, Mariana Roncato, 37, precisou não apenas aprender a utilizar plataformas pedagógicas virtuais como também, e simultaneamente, ensinar seus alunos, que têm em média 8 anos, a usar as ferramentas. Sem muita familiaridade com o universo dos programas de edição de vídeos, por exemplo, foi preciso que ela redobrasse seus esforços na criação de conteúdos didáticos para aplicação online.

A adaptação ao teleaprendizado, associada às necessárias medidas de isolamento social, provocou turbulência no cotidiano da professora. Tamanha desestabilização que, hoje, a profissional da educação precisa se dedicar quase integralmente às aulas e planos de aulas, mas já não consegue ajudar sua filha, Maria Flor, de 6 anos, nas tarefas escolares dela.

Mariana não está sozinha: entre os professores brasileiros, 88% nunca havia ministrado aula remota antes da pandemia e 83% se sente nada ou pouco preparado para o trabalho nesta modalidade - conforme aponta pesquisa do Instituto Península, que será divulgada integralmente nesta segunda-feira (16).

O estudo ouviu 7.734 profissionais de todo o país entre os dias 13 de abril e 14 de maio, portanto, cerca de seis semanas desde a implementação oficial da quarentena em diversos Estados.

E a verdade é que a profissional ainda tem sorte por ter recebido algum tipo de capacitação. A maioria de seus colegas (55%) não teve qualquer suporte para ensinar fora do ambiente físico da escola desde a suspensão das aulas presenciais. Por outro lado, 75% desejaria receber treinamento.
"Tenho um tempo de dedicação quase exclusiva, porque, às vezes, demoro até 7 horas para gravar e editar um vídeo que vai durar 3 minutos", explica a professora, compentando que, para além de aprender a utilizar as plataformas pedagógicas virtuais, ainda tem que desbravar os programas de edição de vídeo e de áudio, por exemplo. "São horas e horas de tutoriais", diz.

Mudança brusca
Feita no início da suspensão das aulas presenciais e que também faz parte do levantamento "Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do Coronavírus no Brasil", a primeira etapa da já mencionada pesquida indicou que 60% dos docentes desejavam fazer cursos e se apromorarem neste período. As dificuldades diárias, no entanto, são um obstáculo difícil de superar.

"No início, pensei que poderia, por exemplo, fazer yoga diariamente, tentar levar essas mudanças de maneira mais tranquila. Mas a quantidade de atividades para desenvolver e criar com a ferramenta é grande e o trabalho foi me consumindo", reconhece Marianne Resende, 38, tutora do ensino fundamental dois.

Outro problema com o qual esbarrou é a dificuldade de estabelecer horários. "Quando você vai da casa para a escola e, depois, volta da escola para a casa, essa mudança de espaço já é um marco para estabelecer um quando começou e quando terminou sua jornada. Sem isso, fica muito vago...", pontua Marianne, que dá aulas crianças de, em média, 11 anos.

E se pequenas tarefas do dia a dia já disputam o tempo dos profissionais da educação, no caso dela há um agravante: a professora precisou, em meio à pandemia, fazer uma mudança, pois o locatário do local em que vivia pediu o imóvel.

Marianne também está entre os 88% que não possuiam experiência com as ferramentas para a educação remota. "O início foi muito custoso. Eu, particularmente, não tinha uma lida tão grande com essas ferramentas", diz. refletindo que, "se aprender já é um desafio, em um cenário que não é muito acalentador fica ainda mais difícil".

"A verdade é que todos fomos, sim, pegos de surpresa. É uma mudança brusca em nosso projeto", estabelece.

Rotina extenuante
Além de Maria Flor, Mariana Roncato é mãe de uma outra menina, a Cecília, de 3 anos. Não por acaso, monta seus planos de aulas madrugada adentro. 

"O meu marido também trabalha em casa, o dia inteiro em home office. Como meu horário fixo é só durante as videoconferências, durante a tarde, fico mais por conta das meninas", explica. "Às vezes, monto escritório no chão da casa, onde posso ficar mais próxima das minhas filhas enquanto elas pintam ou assistem TV, por exemplo", comenta, sem se importar muito com as dificuldades ergonômicas que a posição implica.

"Naturalmente, elas demandam muita atenção, então, acabo optando por ficar até 2h de manhã preparando material, quanto posso me concentrar melhor, ter mais silêncio", garante. 

Com a família em casa durante todo o tempo, uma nova rotina ainda não se estabeleceu. "Não existe mais! Acordo e já tem uma demanda. Tem dias que o almoço só vai ficar pronto lá pelas 15h. Tem ainda a casa, que vai ficando mais suja, porque fica mais gente aqui dentro", situa. Detalhe: como o quartinho dos brinquedos virou home office, a sala, agora, mais parece um playground.

Essa ruptura no cotidiano dos professores brasileiros foi identificada na primeira fase da pesquisa realizada pelo Instituto Península. 

Segundo o estudo, que ouviu 2.400 docentes da Educação Básica em todo o Brasil, 7 em cada 10 mudaram muito ou toda a rotina com a crise. Mais de 90% dos respondentes demonstraram estar muito ou totalmente preocupados com a situação atual e já é possível notar efeitos na saúde mental deles, afirmando que o suporte e apoio psicológico seriam fundamentais.

No levantamento mais recente, 75% revelaram que não receberam nenhum suporte emocional.

Intensidade
A presença dos pais "em sala de aula" é outro fator novo com o qual os docentes precisam lidar. Também pressionados pelas mudanças que a Covid-19 implicou, a intensidade que os tutores tem empregado em elogios e críticas aos profissionais da educação mudou.

"Tem famílias que estão acompanhando e que acabam envolvidas pela boa qualidade das conversas que temos com os alunos. Alguns pais e mães já me procuraram, dizendo que aprenderam algo ouvindo as aulas", comenta Marianne Resende. Algumas vezes, a excitação é tamanha que os tutores acabam se manifestando junto com os estudantes.

Por outro lado, há também famílias que, também readaptando-se a uma nova rotina, têm dificuldades em auxiliar os filhos em suas tarefas escolares dentro das plataformas educativas digitais. "Tem alguns que ficam bravos. Já lidei com aqueles que descarregaram sua raiva, sua frustração e aqueles que, depois, pediram desculpas", comenta a professora, atribuindo ao ambiente virtual, "super ruidoso", parte do problema.

Mariana Roncato ratifica as observações da colega. "A gente busca ir adequando nosso trabalho para atender às demandas das famílias, mas cada uma tem sua particularidade. Como eles também estão sobrecarregados, pode acontecer de ficarem mais agressivos e realizarem cobranças, por vezes, de forma muito incisiva", avalia.

Insuficiente
"Nada substitui a presença, o estar do lado. Presencialmente, é possível fazer leituras, como da fisionomia e do tom da voz, o que ajuda a saber como podemos ir conversando com um aluno", comenta Marianne Resende. "Quando o aluno está distante, é difícil estabelecer esse vínculo e a criança se abrir", diz.

"O ensino remoto não pode ser comparado nem de longe ao modelo de Educação a Distância (EaD). Quando você, espontaneamente, opta por fazer um curso por EaD, você sabe que vai precisar de um computador e de uma internet de boa qualidade e, assim, poderá ser cobrado. Mas, quando o formato é imposto, não há paridade. Nem todos terão a mesma qualidade de máquina ou de banda larga e, portanto, é mais difícil que sejam avaliados com justiça", critica Mariana Roncato. 

A professora lembra que a educação básica é pensada como um processo de formação em que os estudantes aprendem com a interação, seja com professores ou com colegas. Ela cita também que, presencialmente, é possível intervir quase imediatamente diante de problemas de aprendizagem dos alungos, como a desatenção. "Remotamente, a gente não consegue fazer isso assertivamente", lamenta.

As coisas vão melhorar, diz, quando a pandemia for vencida.


Fonte: O Tempo



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